poluição, recusar

Ano Novo, Poluição Antiga

Se cada ano é de aprendizagem e sensibilização para a questão ambiental, a consciência adormece antes da meia noite. A Cinderela transforma-se em abóbora porque, em vez de estar em casa, ficou mais tempo para ver talvez a forma mais espetacular e exuberante de atentar a natureza. Ano novo, mas sempre o mesmo ritual de passagem. 

Só na minha cidade, fizeram-se soar três lugares através de foguetes ou fogos de artifício. Estive no centro da cidade. Contagem de dez segundos antes de ilusoriamente tudo começar do zero. De repente estava uma multidão totalmente expectante e olhar para a decoração concomitantemente mais efémera e mais megalómana que o céu permite. 

No entanto, se nos podemos deixar enganar pelo tempo, a ciência é objetiva. A beleza dos fogos de artifício depende, em primeiro lugar, de oxidantes que permitam a ascensão. E em segundo lugar, de partículas metálicas às quais correspondem as várias cores e que não só ficam suspensas no ar que respiramos em forma de fumo como na água que bebemos quando cada uma das partículas aterra e é levada até aos oceanos, rios, lagos pelo vento ou chuva. Toda a química da pirotecnia (incluindo bombas de fumo, por exemplo) traduzida em impacto ambiental – poluição do ar, dos solos, da água, sonora – e social uma vez que vem entrelaçada em problemas respiratórios e de tiroide. 

Mas há mais. Numa altura em que a Austrália arde e dia após dia há cada vez mais espécies em extinção, o fogo de artifício faz o oposto de ajudar. Os seres vivos responsáveis pela estrutura e coesão dos ecossistemas desta bolha outrora azul que flutua no universo são consecutivamente feridos em prol do divertimento humano. A extrema sensibilidade dos animais aos estímulos do mundo leva a que cada explosão de cor seja um tormento. Para nós, o breu é rasgado pela luz e a espetacularidade. Para eles é cegueira ou surdez, taquicardia que, provocada pela imprevisibilidade do barulho, pode levar à morte, evasão, stress, pânico, correr desesperadamente em círculos mesmo minutos depois de tudo findar. 

Ah! E os que não chegam a rebentar na subida? E os que causam fogos? O nosso luxo de dez minutos é o nosso lixo de centenas de anos. Estamos a arder como nunca antes. Vale a pena? 

SÓ NA MINHA CIDADE, fizeram-se soar à meia noite TRÊS LUGARES através de foguetes ou fogos de artifício. 

Restam as soluções que podemos propôr às autarquias:

  • espetáculos com bolhas de sabão de várias formas e dimensões podem ser postos em prática e têm-se tornado tendência como uma forma de entretenimento absolutamente segura a todos os níveis desde que esse sabão seja composto por produtos naturais. Não sendo ruidosa, pode ser uma demonstração igualmente dinâmica e substancialmente mais interativa e sustentável capaz de  cativar a multidão.
  • fogos de artifício green são adaptações em que os oxidantes são substituídos por substâncias não nocivas, os metais usados são susbtituídos por sais, as embalagens são recicláveis e as cores são escolhidas de modo não serem necessários os químicos mais danosos. Há contras, a começar pelo preço e pelo facto de não serem 100% aquilo que a Terra precisa.
  • confettis biodegradáveis são uma opção tão perecível quanto o divertimento que dão: quando em contacto com a água, dissolvem-se sem causar impacto algum. São excelentes opositores aos confettis que caem aos nossos pés e que não desaparecem quando vamos embora. Antes de serem limpos (ou não, na verdade) já contaminaram toda a área que lhes coube, foram parar aos esgotos, foram pisados e enterrados, levados pela rua nos nossos cabelos e casacos, atirados para o lixo comum.

 

Neste link podem encontrar um vídeo sobre o post:

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